Portugal e os portugueses estão bem, ou… nem por isso(?)
Aparecemos nas notícias como um dos países, à escala internacional, que atrai mais estrangeiros para viver, em particular, na velhice (somos mesmo o país cimeiro entre os demais para esta opção) e, no entanto, somos dos mais envelhecidos da Europa e o que tem dos piores apoios qualitativamente face aos anos de vida ganhos.
Também granjeamos a preferência externa para a compra de habitação, em investimento, de entre particulares e fundos institucionais, mas há cerca de 300 mil dos nacionais que não conseguem aceder a uma casa própria ou arrendada ajustada às suas condições.
Os rendimentos do trabalho aumentam incessantemente, mas só nominalmente, de facto nos últimos 3 anos, o custo de vida real, perante a inflação, faz piorar o nível de vida e os endividamentos ao consumo aumentam.
Por outro lado, com a redução da dívida pública, a taxa de juro ao Estado vem estabilizando, mas o juro bancário aos particulares agrava-se.
As pessoas vivem cada vez mais preocupadas com o dia seguinte e ainda com a sua reforma na velhice mais duradoura.
Mesmo no turismo os sucessos em anos seguidos, não se transferem para a riqueza de quem o produz e serve.
Na Saúde, a despesa pública aumenta, mas o nível de acesso não, portanto, a despesa privada também fomenta as alternativas. Na Educação, a situação agrava a sensação de insegurança, que aliás é transversal ao estado de instabilidade a que as pessoas se sentem em geral.
Não há nem paciência para o convívio, para a vida em comunidade. Qualquer coisa, menor que seja, faz «rebentar o fusível» de cada um com reações antagónicas desproporcionais, na rua, no trânsito, no trabalho, na família, na política.
Tudo parece melhor, mas afinal está, ao mesmo tempo, pior para cada um. Há uma riqueza que causa pobreza. Perigosa esta perspetiva do aprofundamento das desigualdades, mormente quando o investimento público deveria servir para as atenuar, com tantos milhões e fundos de toda a ordem que estão disponíveis e, aparentemente, criam injustiça na redistribuição das oportunidades.
Sim está criada uma ideia do salve-se quem puder no aproveitamento dos bens e na relação com o próximo.
No entanto, creio que em Portugal há, de facto, condições e lugar ainda para o sonho. Para fazer crescer um sentimento de tornar possível, outra vez, um caminho e um futuro melhor em torno de um desígnio que se acredite comum.
Nem falo dos políticos, ou da alternativa política ainda. Pois sinto que (nós) os políticos cada vez mais falam só para si enquanto os demais cidadãos desviam o pensamento para coisas diferentes que lhes torne possível o que precisam.
Falo mesmo em dar espaço e projeção às iniciativas de solidariedade, das coletividades desportivas, culturais, das cooperativas. Deixem que volte a germinar as boas vontades e talvez volte a ser possível, a partir da base, criar confiança entre as pessoas.
Simplesmente confiança para criar a motivação para a energia de esforços comuns, me parece o importante agora.
Vivemos em ansiedade competitiva e julgo que podemos viver com partilha de responsabilidades, desde que não venhamos a descobrir que fomos manipulados pelo poder ou desacreditamos da democracia.
Há que falar verdade para saber o caminho que nos cumpre para os objetivos. Talvez dizer o que podemos fazer primeiro e a seguir, a começar por discutir o papel do público e do setor privado e da relação clara entre eles nesses objetivos ou seremos sempre apunhalados pelos desvios na corrupção.
Mas também, assim, teremos mesmo que ultrapassar o medo dos agentes públicos no fazer acontecer as coisas necessárias em que a burocracia e a suspeita os vão submetendo à vantagem do conforto ao invés do cumprimento da missão.
Ou a alternativa é a continua afirmação da divisão e da turba populista que nos deixará um amargo de boca maior ainda que a pobreza na satisfação das necessidades, depois de tão grandes progressos, deste meio século, que temos de manter vivos com benefícios PARA TODOS.
Paulo Neves é um «ilhéu», mas nenhum homem é uma ilha
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