A Santa Casa da Misericórdia de Tavira inaugura, no dia 1 de outubro, às 18h, na Igreja e Casa Museu da Misericórdia de Tavira, a exposição «Obras de Misericórdia — Gestos que se tornam Arte», um projeto multidisciplinar que reúne catorze artistas convidados do concelho de Tavira, desafiados a reinterpretar, através das suas diferentes linguagens artísticas, as Catorze Obras de Misericórdia.

A exposição nasce de um dos mais importantes elementos patrimoniais da Igreja da Misericórdia de Tavira: o conjunto de catorze painéis de azulejo executados em torno de 1760, onde se encontram representadas as sete Obras de Misericórdia Espirituais e as sete Corporais. Mas o projeto não pretende apenas revisitar estas representações históricas, parte de uma pergunta muito atual: o que significam as Obras de Misericórdia nos nossos dias?

Dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, acolher, visitar quem está doente ou privado de liberdade, ensinar, aconselhar, consolar, perdoar, compreender as fragilidades do outro ou recordar aqueles que partiram são gestos com séculos de história, mas que continuam presentes nos desafios da sociedade contemporânea. É precisamente essa atualidade que a exposição procura revelar.

O projeto teve início com uma residência artística na Igreja e Casa Museu da Misericórdia de Tavira, proporcionando aos artistas um primeiro encontro com o espaço, a sua história, os painéis de azulejo e o significado das Catorze Obras de Misericórdia. A partir desse momento iniciou-se um processo de investigação, encontro, diálogo e criação, desenvolvido ao longo de vários meses.

A cada artista foi atribuída uma Obra de Misericórdia, mas não foi determinada a forma como deveria representá-la. Pelo contrário, foi-lhes dada liberdade para questionar, interpretar e transportar esse conceito para o presente através da sua própria linguagem. Deste processo nasceram propostas em diferentes disciplinas e formas de expressão artística, fazendo da diversidade dos criadores uma das principais forças da exposição. Os artistas não foram convidados para ilustrar os azulejos de 1760. Foram convidados a conversar com eles. Cada criação apresenta, por isso, um olhar pessoal sobre uma questão que continua a dizer respeito a todos nós: a forma como vemos, acolhemos e cuidamos do outro.

A escolha de artistas do concelho de Tavira constitui também uma dimensão essencial do projeto. A Igreja e Casa Museu da Misericórdia de Tavira pretende afirmar-se como um espaço onde a preservação do património histórico possa conviver com a criação artística contemporânea e com a valorização dos criadores do território. Reunir catorze artistas, com percursos, gerações, experiências e disciplinas distintas, em torno de um património comum é também uma forma de mostrar a riqueza e diversidade da criação artística existente no concelho.

Neste projeto, o património não funciona apenas como cenário. É matéria de criação, e os artistas tornam-se mediadores entre aquilo que as paredes da Igreja contam há mais de dois séculos e as questões que a sociedade coloca hoje. O percurso foi pensado para criar uma relação direta entre a exposição contemporânea e a própria Igreja e Casa Museu da Misericórdia de Tavira. O visitante poderá conhecer as interpretações dos artistas e, simultaneamente, procurar nos painéis de 1760 a representação histórica de cada Obra de Misericórdia.

A exposição chama ainda a atenção para os símbolos cristãos presentes nas cartelas dos painéis, criando uma segunda leitura do conjunto e convidando o público a olhar com maior atenção para um património que permanece no seu lugar original. Desta forma, visitar «Gestos que se tornam Arte» será também uma oportunidade para redescobrir a Igreja da Misericórdia de Tavira e compreender como o património pode ganhar novos significados quando é colocado em diálogo com o presente.

A inauguração de 1 de outubro não pretende, contudo, ser o ponto final do projeto. A Santa Casa da Misericórdia de Tavira está já a trabalhar numa futura vertente itinerante, educativa e comunitária, que permita levar o conceito da exposição às freguesias, escolas, instituições e outros espaços, aproximando as Obras de Misericórdia de públicos que nem sempre chegam ao espaço museológico. Pretende-se que o património possa sair das suas paredes e ir ao encontro das pessoas, dando origem a novas atividades, oficinas, encontros e interpretações.

Existe igualmente a intenção de estabelecer pontes com outras Misericórdias, permitindo que um projeto nascido a partir do património singular de Tavira possa inspirar novos encontros e reflexões noutros territórios. “Porque, mais de dois séculos depois dos painéis de azulejo e mais de cinco séculos depois da afirmação das Misericórdias em Portugal, a questão permanece profundamente contemporânea: Como cuidamos hoje uns dos outros? «Obras de Misericórdia — Gestos que se tornam Arte» procura respostas através da arte, mas sobretudo pretende deixar a pergunta a cada visitante”, refere a Santa Casa da Misericórdia de Tavira.

A exposição conta com o apoio do Município de Tavira, no âmbito do projeto «Equinócios», e com o apoio da União das Freguesias de Tavira (Santa Maria e Santiago).