Cintos apertados?

Sei que já estão. Estamos a sentir que não conseguimos controlar o rumo das nossas vidas.

Antecipo que o Algarve vai voltar a ser o centro do furação das dificuldades, já por isso chamo a atenção também dos responsáveis públicos.

De uma forma brutal os preços têm vindo a aumentar e, infelizmente, nesta conjuntura internacional, é normal que continuem a aumentar ainda mais, assim como os juros e o impacto nos empréstimos já contraídos.

Os rendimentos, o emprego, a partir de outubro/novembro vão reduzir-se e o nível das disponibilidades já é inferior às necessidades com a casa, com os filhos a estudar, com os transportes. Um rendimento médio, em torno dos 1100€s é insuficiente para as rendas, alimentação, seguros, combustível…

A partir de outubro/novembro, com a habitual redução do nível de atividade no Algarve e portanto, com o recurso à proteção no desemprego a fazer baixa ainda mais os rendimentos disponíveis, é de pensar já como é que no Algarve, atendendo às especificidades da região e dos locais, cuidamos de reivindicar e preparar as medidas para apoiar quem vai estar, durante meses seguintes, numa situação angustiante a acrescentar às dificuldades já vividas.

Não vou discutir culpas, prioridades, nem indicadores nacionais. Apenas antecipo o óbvio, a situação é grave e pode vir a tornar-se, a muito curto prazo angustiante no Algarve.

Enquanto cidadãos, já vivemos crises anteriores, seja no subprime (nas instituições financeiras; na pandemia), seja agora por via das guerras. Ultrapassámos as dificuldades, mutos sofreram imenso. Mas já temos casos de medidas que podem surtir efeito para dirimir o sofrimento e no caso da sazonalidade da atividade na região também.

Assim apelo a que possamos lançar mão de imediato de algumas medidas, preparar a sua implementação e ter voz para a ação junto das entidades pertinentes.

Menciono a Segurança Social, 
Escolas de Hotelaria e Turismo, o Instituto de Emprego e Formação Profissional, os Sindicatos e as Associações Empresariais, para exemplificar as que estão mais próximos das pessoas e problemas, com as competências certas para intervir. Exemplifico com o relançamento de Programas de Formação-Ação em que os atuais trabalhadores possam manter a atividade laboral e receber formação sem redução de níveis de rendimento, suportados com os mesmos meios que são despendidos com o «fundo de desemprego» acrescidos de bolsas de formação.

Os trabalhadores mais experientes numas áreas poderiam ser também formadores nessas, mesmo recebendo atualizações em outras, entre áreas técnicas, de línguas, de marketing, acolhimento, de intervenção e primeiros socorros, de segurança no trabalho ou reconversão profissional para preparar o futuro.

Os empresários manteriam os postos de trabalho, recebendo colaboradores com motivação renovada. Reduzindo custos e aproveitando tempos de manutenção dos respetivos estabelecimentos que também deveriam ser apoiados com melhorias de circuitos e equipamentos da formação em prol dos trabalhadores e do desempenho na atividade.

Reduzir-se-iam os problemas sociais e aumentar-se-ia a capacitação, a relação e o cuidado na nossa comunidade de forma ativa.

Sei que falta pouco tempo para estas ou outras ações, mas fazer nada não é opção pois a alternativa é confrangedora.

Como é confrangedor percebermos que há um aumento da arrecadação fiscal, assim como da despesa pública, mas há também menor resposta nos serviços públicos na Educação, na Saúde, etc, que faz com que o sentimento de proteção diminua e a tentativa de compensar as necessidades com aumento da despesa individual.

Surpreende que seja tão pernicioso o aumento da taxa de inflação quanto o efeito positivo que isso afinal tem nos indicadores das contas públicas.

O Governo deve continuar a tomar medidas fiscais, de incentivo social além de recitar o óbvio.

O Algarve tem voz para reivindicar isto e muito mais. Estamos juntos.

Paulo Neves é um «ilhéu», mas nenhum homem é uma ilha

Crónica publicada em: