Após a partida do meu pai, anos depois seguiu-se a minha mãe. De repente, vi a casa que me viu crescer vazia de gente, cheia de bens pessoais e repleta de memórias, as minhas. Um mês foi o período que então estipulei para entregar a casa ao senhorio. Achava eu, então, que seria o período suficiente para esvaziar a casa. Entretanto, descobri que o tempo se tinha encarregado de a fazer encolher em área disponível, tal a quantidade de bens pessoais, estimativos e afetivos que encontrava quando abria uma gaveta, um armário, uma estante, um baú ou uma caixa. Mais do que bens pessoais do dia a dia, eram bens dos dias vividos por todos os elementos que até então tinham construído o nosso património familiar.
Compreendi, na altura, a razão por que para muitas pessoas esvaziar a casa dos progenitores é uma das tarefas mais difíceis da vida. Precisamente porque não é apenas «esvaziar uma casa». É desmontar um mundo. Quando os pais vão para um lar ou morrem, a casa deixa de ser apenas um espaço físico. Cada gaveta, álbum de fotografias, livro ou peça de roupa pode representar uma memória, uma parte da identidade deles e também da nossa. Por isso, é normal sentir tristeza, culpa, ansiedade, angústia, exaustão ou até conflito interior.
Tal como eu então fui, muitas pessoas acham que devem ser pragmáticas e resolver tudo rapidamente. Na prática, é frequente abrir uma caixa e passar meia hora a recordar histórias. Obviamente, não há nada de errado nisso. Tentei não decidir tudo de uma só vez, tomando como estratégia dividir os objetos em categorias: os que guardaria, os que daria a familiares ou amigos, os que doaria, os que venderia e os que reciclaria ou deitaria fora. Não é fácil consciencializarmo-nos que as memórias não estão nos objetos, pois muitas vezes sentimos que se deitarmos algo fora estamos a perder a pessoa. Optei, por isso, por guardar alguns objetos pessoais significativos associados a memórias fortes e marcantes. De quando em quando revisito-os, pois sei que manuseá-los e vê-los faz-me bem!
No fundo, esvaziar a casa dos pais é um trabalho logístico, mas sobretudo emocional. Ao entrar na casa após a perda, muitas pessoas sentem uma espécie de «presença psicológica» da pessoa falecida. O verdadeiro desafio não é decidir o que fazer com os objetos, é aceitar que uma fase da vida terminou e assim encontrar uma forma de levar as memórias connosco sem termos de carregar tudo fisicamente.
Durante o processo de arrumação é frequente descobrir fotografias antigas, cartas desconhecidas, documentos ou objetos esquecidos. Isso pode levar-nos a experienciar uma sensação curiosa de conhecer novamente quem partiu. Tal como eu, algumas pessoas dizem que ao esvaziar a casa dos pais, descobriram dimensões das suas vidas que nunca tinham imaginado.
É comum ouvir algumas pessoas dizerem: “O que aqui foi vivido permanece comigo. O resto pode seguir o seu caminho”, descrevendo este tipo de ritual não como um adeus definitivo, mas como uma transformação da relação: a pessoa deixa de estar presente na casa e passa a estar presente na memória, na identidade e na história de quem fica. É isso que sinto quando, de carro, passo pela casa onde vivi com os meus pais e olho para as suas janelas: a nostalgia e as boas e gratas memórias de um tempo único e insubstituível.
Quando os pais vão para um lar, a situação pode ser ainda mais complexa porque existe uma espécie de luto ambíguo. A pessoa continua viva, mas a vida mudou radicalmente. Nessa altura, fazer uma espécie de despedida poderá ajudar. Como? Passando algum tempo na casa antes de entregar as chaves, tirando fotografias dos espaços, escrevendo algumas memórias e conversando com familiares sobre histórias associadas àquele lugar. Isso ajudará a fechar um capítulo de forma mais consciente, consistente e assumida.
Por vezes, questiono-me se os meus filhos quererão ficar com os meus objetos (muitos deles associados à música) após a minha morte. À medida que envelhecemos, tendemos a associar os objetos à nossa história. Um móvel não é apenas um móvel, é a mesa onde a família jantava, a cadeira onde o pai lia o jornal, a loiça usada nos Natais. Para os filhos, muitas vezes, esses significados existem, mas são menos intensos e representativos. Muitas pessoas preocupam-se em deixar coisas aos filhos, quando aquilo que os filhos mais desejam herdar são frequentemente coisas que não ocupam espaço: estórias de família, receitas, fotografias identificadas com nomes e datas, gravações de voz, cartas escritas pelos pais e memórias partilhadas.
Talvez a pergunta mais útil não seja: “Os meus filhos irão querer os meus objetos após a minha morte?”, mas sim: “De quais dos meus objetos os meus filhos se lembrarão quando pensarem em mim?”. Esse sim, será o espólio que nos sobreviverá!
Paulo Cunha é professor
Crónica publicada em:
Foto: Daniel Santos
