Em boa hora surgiu um novo movimento de mulheres conservadoras.
Que refrescante!
Que maravilha!
Há muito fazia falta alguém que viesse valorizar as mulheres. Alguém capaz de lhes lembrar que são as guardiãs dos bons valores. Que têm um lugar único na sociedade. Que o marido, os filhos, o asseio da pia da loiça, tudo depende delas.
Urgia desfazer a perigosa falácia de que uma mulher pudesse, em sã consciência e livremente, preferir liderar uma empresa a cuidar do próprio lar.
Bem hajam, pois, os homens que viabilizaram a formação deste movimento. Convém, no entanto, lembrar-lhes que tal não basta. Uma convenção, uma declaração de intenções: é pouco. Seria ingénuo esperar que as mulheres tomassem sozinhas as rédeas de um processo desta envergadura. Há que prepará-las devidamente para o papel que anseiam por assumir.
Comecemos pelas bases: o regresso das aulas de economia doméstica aos curricula femininos. Afinal, quem governa uma casa precisa de competências adequadas. Há que recuperar a capacidade de fazer um pouco de tudo, e, convenhamos, as mães de hoje em dia não são os melhores exemplos.
A dona de casa ideal domina o Pantagruel e tanto prepara uma lagosta suada como um arroz de atum enlatado. Robôs de cozinha, nem vê-los; comida encomendada, muito menos, ainda por cima entregue por estrangeiros (vade-retro Satanás!). A mulher conservadora encontra a felicidade no vinco impecável das calças, nas bainhas perfeitas dos cortinados, num chão encerado até ofuscar, na descoberta de um novo detergente anti-calcário.
Mas não se pense que a mulher conservadora é uma prisioneira. Nada disso. É uma mulher livre, que tanto vai ao supermercado como à missa, leva os meninos à escola, caso o pai esteja impedido, e dedica-se a meritórias ações de caridade junto dos pobrezinhos, a quem leva primorosas caixas de petit fours e macarons de frutos vermelhos, porque a pobreza não é desculpa para a falta de bom gosto.
Organizada, sobra-lhe ainda tempo para bordar as iniciais num jogo de toalhas, preparar o enxoval do afilhado, reunir as amigas para um chá e, entre uma fatia de bolo e outra, trocar impressões sobre plantas decorativas. Cuidar-se é fundamental. Tratar das mãos e dos pés, tirar os rolos, maquilhar-se com a discrição que se espera de uma senhora e, ao fim do dia, receber, com um sorriso agradecido, quem lhe garante o conforto.
Haverá sempre algumas mulheres que não conseguirão perceber o alcance e a importância deste movimento. Sim, porque devolver as mulheres à família é como pôr no sítio um osso que saiu do lugar. Implica força e dor. Mas vale a pena. É para o bem delas.
Por isso, há que ser firme.
Na próxima convenção, por exemplo, podia começar-se logo pela formação prática. Duas galhetas bem dadas à entrada. Uma pequena dor a tempo de evitar outras piores no futuro. E depois, ainda cambaleantes, mas já devidamente orientadas e agradecidas, colocados os óculos de sol indispensáveis à indumentária de uma conservadora, cada uma segue, com ar digníssimo, para o lugar que lhe está destinado.
Sílvia Quinteiro é professora
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