Assim como há os marcadores de livros, há marcadores de tempo – uma crónica é um marcador de tempo. Estas, que venho escrevendo e que a imensa benevolência do Daniel Pina faz publicar no Algarve Informativo, têm-me marcado como um compasso. Penso na forma que lhes hei de dar, no modo de as tornar um pouco menos insuficientes (para mim, antes de mais, por não pretender a veleidade de que há para além de mim quem as leia), e andam à minha roda nessa procura. Interessa-me fixar alguma coisa dos meus dias? Se é certo que me surge um sorriso quando, por elas, recordo um livro que li, um filme, um episódio que tenha sucedido, é certo de igual maneira que o meu olhar para trás é indiferente, desinteressado, que se volta sobretudo para diante (só assim pode ser), e que se me tornam irrelevantes todos os momentos no segundo em que sucedem. Mas é-se Janus, do mesmo modo inevitável: o olhar para trás não resolve, mas ajuda a conhecer – e a avançar.

Para avançar, pois, olho à volta de mim. Olho para cada instante do dia e fixo-me nos minutos do começo, naquela porção de tempo em que sou ainda a que sonha, adormecida, desconhecedora do onde, agudamente consciente do quotidiano quando e, ao mesmo tempo, a que quer agarrar o dia, de olhos bem abertos e atentos, receosa de perder uma centelha que seja dos sons, das luminosidades, do movimento que vejo fora das janelas da cozinha ou entre as nuvens do céu iluminado. Há quase vinte anos (dos meus mais de 55), acompanha-me nestes momentos a constância das folhas de chá. Na Primavera do ano passado, escrevi sobre o livro de Wenceslau de Moraes, O Culto do Chá. (Está em domínio público, acessível, por exemplo, por aqui ou por aqui.) Foi nele que li sobre a lenda de Darumá, sobre o esforço de meditação, a sua luta contra o sono e a ajuda que lhe deram as milagrosas folhas na persistência da vigília. A mim não me aflige o sono, mesmo se às vezes poderia ter a ambição de pensar de maneira mais profunda. A verdade é que sinto o mesmo prazer no acordar como no momento de me entregar à inconsciência do descanso, no estar desperta e no dormir. A ambos me entrego com vontade e com rituais que, a cada dia que passa, mais aceito que me ajudam nessas entregas e entradas: ao sono, no sono, ao despertar, no despertar. É o ritual do despertar, porém, o que se prolonga no dia, na agitação que cumpro, em tudo contrária à imobilidade das minhas noites. É nisso que entra o chá (é em mim que entra o chá, fazendo-me do dia e da vigilante existência coisas comuns).

Fica decidido e agrada-me: as próximas crónicas terão por título «Folhas de chá». Dos haikus à maneira dos que escreveu o baiano Oldegar Franco Vieira, terão a inspiração e a humildade, nanja a forma. Com as belas tisanas de Ana Hatherly, partilharão uma ideia de projeto, de vontade para diante: a nada mais me quererei atrever. Posto isto, vou preparar um bom bule.

Ana Isabel Soares é professora

Crónica publicada em:

Foto: Vasco Célio