Depois de ter pegado em dois livros e nenhum deles me ter entusiasmado, decidi passar a noite a ver televisão. Não procurava um canal ou programa em particular. Queria apenas companhia até adormecer.
Liguei o aparelho e dei uma volta pelos canais de informação. Notícias, debates, comentadores. Na verdade, inúmeros comentadores, de diferentes idades, cores políticas, religiões e nacionalidades. O que, à primeira vista, me pareceu uma saudável manifestação de diversidade, depressa se revelou uma verdadeira confraria de arautos da desgraça, empenhados em disputar entre si o privilégio de anunciar em primeira mão o apocalipse.
Num canal, discutia-se a hipótese de a humanidade ser extinta pela Inteligência Artificial em menos de dez anos. Noutro, explicava-se como Putin ponderava bombardear em breve a Europa Ocidental. Noutro ainda, o Irão atacava os vizinhos e ameaçava o petróleo, as economias europeias e, por essa via, a nossa sobrevivência. Havia também quem explicasse como os Estados Unidos poderiam transformar a Europa no inimigo número um: primeiro a Gronelândia, depois os Açores e, finalmente, o nosso fim, claro está. Em qualquer destes cenários, estaremos todos mortos não tarda mesmo nada.
Fui ficando ansiosa. Não sou particularmente dada ao falecimento e aquela sucessão de calamidades e previsões catastróficas não me parecia uma boa forma de terminar o dia. Comecei, então, a suspeitar de que talvez houvesse uma explicação mais simples para tanto drama. A competição é feroz e nada prende mais o espectador do que uma boa tragédia. Se um anuncia uma catástrofe, o outro tem de anunciar uma maior. Se um prevê uma epidemia, o seguinte terá de prever a extinção.
Continuei a navegar pelas grelhas e descobri que, naquele horário, o fim do mundo disputava audiências com o universo cor-de-rosa. Detive-me num dos programas em que se comentava a adequação de um cinto ao corpo de uma atriz, o tamanho das unhas da noiva de um futebolista, a cor das sobrancelhas de uma cantora. Mas também havia insinuações de infidelidades, paternidades duvidosas e tudo aquilo que cabe na categoria da roupa suja.
Fiquei a ver, intrigada, não com os visados, mas com quem deles falava. Os tempos são mesmo outros. Os contínuos passaram a assistentes operacionais, os cozinheiros a chefs, os caixeiros-viajantes a técnicos de vendas, e as antigas cuscas a comentadores do social. Aquilo que antes era próprio das calhandreiras, de gente com falta de educação, de princípios ou simplesmente de ocupação – investigar quem andava com quem, quem tinha feito o quê e comentá-lo à menor oportunidade –, é agora uma profissão respeitável e admirada. Chique, quem diria. Bastou mudar o nome.
A coisa pega-se de tal maneira que, a certa altura, dou por mim a ter uma opinião sobre o casal cuja fotografia aparece no ecrã. Também eu acho que ficam muito bem juntos, que têm tudo para dar certo. Embora não faça a mais pequena ideia de quem são. Mas acho que sim.
Apercebo-me do disparate e, em busca de um documentário sobre qualquer coisa suficientemente inútil para não ter de pensar em nada, detenho-me numa entrevista a um primeiro-ministro. Fico incrédula ao perceber que dá palpites sobre a forma como o primeiro-ministro de um país vizinho governa o país dele. Preciso de uns instantes para me sintonizar. Por momentos, pensei que se tratasse de interferências e que o som de um canal se tivesse misturado com a imagem de outro.
Tive pena do homem. Talvez também sofra de insónias. Foi saltando entre programas e acabou por baralhar política com conversa sobre a vida alheia. Deu nisto. Ao menos, não se pôs a dar à língua sobre a mulher do seu homólogo, a decoração da residência oficial, a roupa mal estendida ou as janelas que estão há meses por lavar. Podia ter sido bem pior…
Sílvia Quinteiro é professora
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