Ariano Suassuna
Comecei a dar aulas na universidade há mais de 30 anos. Mestrado recém-defendido e um medo enorme da grande responsabilidade que tinha pela frente. Fiz concurso para a disciplina Jornalismo Brasileiro, mas fui logo convidada a mudar para as Artes. A primeira disciplina que dei se chamava Estética e História da Arte. Um mundo inteiro num único semestre. Guardo ainda hoje o caderno que me acompanhou nos meus primeiros e hesitantes passos. Era mais nova que alguns dos alunos e os recursos visuais não eram prolíficos. Contei com o grande entusiasmo e curiosidade da turma. Tinham sede de aprender, partilhavam comigo a sua vontade de desvelar a História, de entrelaçar-se no discurso filosófico e de saber mais. Lembro-me de mostrar as imagens a passar os meus livros carteira a carteira. Consegui criar um bom arquivo de slides que eram renovados a cada viagem que fazia. A precariedade dos meios nunca foi um impeditivo para a vontade de aprender e para o prazer que o conhecimento trazia. Na altura vivia em Aracaju e dava aulas na Universidade Federal de Sergipe. Os livros eram a minha ferramenta essencial. Lembro-me de uma tentativa frustrada de assalto que sofri na altura. A caminho da Rodoviária, tarde da noite, passo por um trecho mais deserto e, de repente, salta-me um homem, que me pareceu muito alto, e começa a puxar a minha mala, que era na verdade um saco de viagem. Ele puxava para um lado, e eu puxava para o outro, enquanto berrava veementemente. Só pensava nos livros de História da Arte que levava no saco e que, além de terem custado uma pequena fortuna, eram a base de todo o meu trabalho. Não fui assaltada, por um milagre apareceu um polícia e o bandido fugiu. Consegui assim manter comigo, agarrados embaixo do braço, os meus bens mais preciosos: os livros. Passados muitos anos, já dava aulas em Portugal, um aluno escreveu-me a dizer que tinha ido ao Louvre e que ao entrar só pensou em mim porque as minhas aulas ressoaram a cada passo dado nas galerias do museu. Não podia ficar mais feliz.
Comecei este ano letivo com a disciplina Estética, muito mais concentrada e menos vasta que a primeira disciplina que dei na minha vida docente. Tento, a cada ano, trazer materiais diferentes, aprofundar uma ou outra questão porque continuo a aprender com a preparação das aulas. Uso todas as ferramentas que temos hoje às mãos, mas avisei aos alunos: Estética não é fácil. Não se aprende numa dancinha do TikTok. Não cabe num prompt. Para escrever o prompt, é preciso saber o que se quer saber. As perguntas tornam-se muito mais necessárias que as respostas. Mas para perguntar é preciso ter curiosidade, vontade de conhecer. É necessário perceber as relações, os meandros, o contexto, as mundividências que levaram um conjunto de pessoas a escrever sobre a Arte e sobre o seu impacto em nós. Nunca duvidei que o meu papel como professora fosse o de instigar perguntas, o de lançar pontes, o de estabelecer relações. O de provocar a curiosidade e de alimentar o desejo de saber. As respostas, quase todas, estão à mão de semear. Mas é preciso um professor para ajudar a encontrar as perguntas. E também para tentar, de alguma maneira, continuar a buscar o maravilhoso e a iluminar alguns caminhos, permanecendo, nem que por instantes, na memória daqueles que passam por nós.
Mirian Tavares é professora
Crónica publicada em:
Foto: Isa Mestre
