Fui hoje vítima de uma agressão em público. Aconteceu numa sala de conferências, diante de uma plateia numerosa. Ninguém interveio.
A gravidade do caso exige um esclarecimento prévio. Não sou uma fundamentalista da língua. Aceito com naturalidade o facto de ser raro o dia em que não surgem novas palavras, vindas das ciências, das tecnologias, da economia ou da linguagem dos adolescentes. E compreendo que, ao princípio, nos causem alguma dificuldade: construções estranhas, estrangeirismos ainda pouco familiares. Tropeçamos, corrigimos, aprendemos. Faz parte. Algumas acabarão por vingar e, quem sabe, por conquistar um lugar nos dicionários.
Há, porém, palavras que existem desde sempre, mas com as quais tão raramente nos cruzamos que, por vezes, nem as reconhecemos quando as ouvimos. E lá lhes acrescentamos uma sílaba ou lhes amputamos outra. Não é bonito, mas dá-se um desconto.
Outra coisa, bem diferente, são os erros que, só por serem cometidos, deviam condenar quem os profere a uma entrada direta nas profundezas do Inferno. Refiro-me aos casos em que uma palavra comum, usada todos os dias, lida e ouvida milhares de vezes ao longo da vida, surge sistematicamente deformada.
Deixemos de fora quem teve menos oportunidades de estudar, quem não pôde beneficiar de uma formação prolongada ou de um contacto continuado com a língua. Não é aí que quero chegar. O que me incomoda são as pessoas que percorreram todos os graus de ensino: fizeram licenciaturas, mestrados, por vezes doutoramentos, apresentam comunicações, escrevem relatórios, dão aulas e, ainda assim, parecem nunca ter dado conta de que pronunciam determinada palavra de maneira diferente daquela que está nos dicionários. Nunca terão sido corrigidas? Ou estarão convencidas de que são as únicas a dizê-la corretamente?
Há palavras e expressões mais propícias do que outras a este tipo de crime. De todas, destaco uma que há muito me irrita: a bendita plantaforma. Sim, plantaforma. Vejo labaredas. Sinto o cheiro do enxofre. É um caso grave. Gravíssimo, na verdade, pois a mistura da planta com a forma soou tão bem aos ouvidos dos portugueses que a língua de Camões mais parece uma estufa. Em cada reunião, em cada conferência, em cada relatório, desabrocham plantas de formas cada vez mais bizarras.
Voltemos, então, à sala de conferências. E não se pense que a agressão de que fui alvo partiu de uma pessoa qualquer. A nota biográfica que antecedeu a apresentação garantia estarmos perante uma académica de alto gabarito, com títulos, diplomas e um currículo científico impressionante. Do lugar onde me encontrava, porém, vi apenas uma guerreira num ringue. De arma em punho. Um domínio absoluto da técnica.
Sem possibilidade de defesa, aguentei uma plantaforma digital no queixo, uma plantaforma de partilha no estômago, uma plantaforma colaborativa nas costelas e uma plantaforma de aprendizagem a varrer-me as pernas. Ainda tentei recompor-me, mas uma plantaforma de gestão apanhou-me desprevenida. E, quando já me encontrava em estado lastimável, uma plantaforma de divulgação científica acertou-me em cheio na têmpora.
KO.
Ainda gemi: pla-ta-for-ma.
Sílvia Quinteiro é professora
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