Quem me conhece sabe que um dos hobbies que tenho é o da observação de aves. É algo que tenho vindo a fazer ao longo dos últimos 35 anos, mais precisamente desde 1989, ano em que conheci alguns amigos que me introduziram ao mundo das aves. Hoje, além de continuar a ser uma actividade que ainda faço em lazer, é sobretudo uma experiência turística que ofereço na empresa que dirijo. A observação de aves ou Birdwatching, numa terminologia internacional mais turística, tem vindo a ganhar relevo no Algarve, fruto de um longo trabalho que várias organizações da região têm vindo a desenvolver, em particular a Região de Turismo do Algarve (RTA) e a Associação de Turismo do Algarve (ATA). Mas não só. A Associação Almargem e a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves têm tido um papel fundamental na promoção desta actividade, como bem ilustra o já muito conhecido Festival de Observação de Aves de Sagres. Estas duas associações estiveram, ainda, na execução de uma estratégia regional de promoção do Turismo Ornitológico, a pedido da RTA - o qual tive a oportunidade de o co-coordenar –, cujo estudo identificou as valências e as necessidades reais no terreno para impulsionar a actividade.

A relevância do Birdwatching reflecte-se em vários aspectos. Por um lado, por se realizar sobretudo nos períodos de época turística média-baixa (Outono, Inverno e Primavera), contribuindo bastante para o combate à sazonalidade, fenómeno esse tão focado nas estratégias de desenvolvimento turístico das regiões. É, além disso, uma actividade que tem um importante impacto económico a região, nomeadamente em territórios mais rurais, pois privilegia os mesmos na procura de pequenos alojamentos familiares, gastronomia tradicional e, claro, na contemplação do ambiente natural aí abundante.

O que sabemos hoje é que esta actividade tem vindo a crescer no Algarve e já mobiliza milhares de visitantes por ano. Contudo, o real valor dessa procura e o respectivo impacto permanece pouco conhecido. Sabe-se, porém, que a procura se espalha por toda a região, desde Sagres, passando por Monchique e chegando a Castro Marim, com extensões proveitosas ao Alentejo, à zona de Mértola e Castro Verde. Também é do conhecimento geral que os britânicos são a maioria dos que procuram estas actividades, mas há uma crescente diversidade no público interessado. Americanos, asiáticos ou escandinavos são exemplos dessa nova procura, nalguns casos impulsionados pelas novas tecnologias, pela fotografia ou o simples contacto com a natureza.

Também se sabe que o Algarve é uma região particularmente importante para aves, não fora o facto de quase 40 por cento do território estar classificado pela sua importância ecológica e grande parte dela estar associada à ocorrência de espécies de ameaçadas, sensíveis e protegidas.

O que infelizmente se sabe, mas que continua refém do esquecimento geral, é que os locais onde as aves vivem e onde se realizam estas actividades, estão cada vez mais votados ao abandono e à degradação, com consequências claras na ocorrência das mesmas e na qualidade da oferta turística.

E é aqui que as entidades regionais e municipais deveriam encontrar formas de trabalhar juntas e procurar actuar em diversos domínios relevantes na projecção turística do Algarve, nomeadamente:

• Manutenção de infra-estruturas de apoio ao birdwatching. Há equipamentos partidos, tombados e degradados. Visite-se, por exemplo, a Lagoa dos Salgados e veja-se o estado em que se encontra os equipamentos lá existentes.

• Melhoramento de infra-estruturas. Há diversos observatórios de aves na região e desses apenas dois ou três servem para alguma coisa. Os outros são apenas desperdícios avultados de dinheiro, sem qualquer vantagem para a actividade em si. Veja-se os recentemente instalados em Olhão, no passeio ribeirinho.

• Novas infra-estruturas de qualidade. Pode parecer estranho criticar o que existe em termos de infra-estruturas e ao mesmo tempo sugerir a instalação de novas. Mas a verdade é que há uma falta de pequenas e médias infra-estruturas de qualidade para que a região possa afirmar-se melhor como destino de Birdwatching.

• Lixo e mais lixo. Percorrer zonas naturais com lixo em abundância, mesmo dentro de áreas protegidas, é no mínimo um golpe de estômago para quem, como eu, procuro mostrar a natureza do Algarve supostamente em locais de especial valor. Há que encontrar forma de manter limpas zonas especiais pela sua sensibilidade e pela sua vocação turística.

• Gestão dos locais onde ocorrem as aves. Aqui entramos num capítulo que exige mais conhecimento técnico, mas fundamental. Desde a gestão da vegetação, ao controle dos níveis de água em lagoas costeiras ou simplesmente ao controlo da perturbação excessiva, há imenso a trabalhar e a implementar.

• Trabalhar com os proprietários dos terrenos no sentido de encontrar formas vantajosas para ambas partes, no sentido de melhorar as condiçõess de visitação e de gestão dos habitats das aves;

• E por fim, uma melhor regulação e controle da actividade – deste e outros segmentos turísticos – de forma a conseguir garantir experiências de qualidade. Tal passa por mais formação e capacitação dos agentes e profissionais, definição de regras de conduta, fiscalização no terreno, controle das capacidades de cargas de locais mais sensíveis, entre outros aspectos.

Sem nada disto, seremos remetidos para segundas ou terceiras escolhas aquando da procura turística para o Birdwatching, sabendo que este é um segmento que encontra forte concorrência logo aqui ao lado (Espanha) e aqui em baixo (Marrocos).

O futuro do Algarve enquanto destino assim o exige. Saberemos disso?

João Ministro é empresário e engenheiro do ambiente

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