Lembrei-me da frase já batida “Este país não é para velhos” quando num fim de semana em que estava a conviver com um casal amigo, o mesmo recebeu um telefonema de uma amiga que, estando ausente do Algarve, lhe solicitava que desse apoio aos pais, pois ambos já idosos, tinham ficado com o seu carro empanado na baixa de Faro. Ouvindo a conversa telefónica, não pude deixar de solidarizar-me com a preocupação manifestada pelos pais e respetiva filha, ao não conseguirem falar com ninguém ao telefone, pois, por ser fim de semana, toda a comunicação era reencaminhada para um atendedor automático.

A digitalização dos serviços tornou-se um sinal de que o país nem sempre acompanha os seus cidadãos mais velhos. Marcar consultas, tratar de documentos, utilizar serviços bancários ou resolver questões administrativas exige cada vez mais competências digitais. Para muitos idosos, cada nova plataforma representa mais uma barreira. O que para uns é conveniência, para outros pode ser exclusão. É preocupante que, num país democrático, o acesso a direitos básicos possa depender da familiaridade com um computador ou um telemóvel.

Considerar os idosos apenas como um grupo vulnerável é ignorar o valor que representam para a sociedade. Os mais velhos são depositários de memórias, experiências e conhecimentos construídos ao longo de uma vida inteira. A sua presença assegura uma ligação entre gerações e contribui para a transmissão de valores, tradições e aprendizagens que não se encontram em livros nem em bases de dados. Uma comunidade que marginaliza os seus idosos corre o risco de perder parte da sua identidade e da sua memória coletiva.

Cresci a ouvir que os idosos eram os guardiões da memória. Eram eles que contavam histórias sobre tempos difíceis, sobre a pobreza, a emigração, a ditadura, a construção de um país mais livre e mais próspero. Hoje, porém, tenho a sensação de que essa memória vale cada vez menos numa sociedade fascinada pela novidade, pela velocidade e pela tecnologia. Vivemos num tempo em que tudo muda rapidamente e em que a experiência parece ter sido substituída pela capacidade de acompanhar a última atualização de uma aplicação para telemóvel.

Portugal é um país de contrastes. Gostamos de dizer que respeitamos os mais velhos, que a família tem um papel central na nossa cultura e que os idosos são uma fonte de sabedoria. No entanto, a realidade nem sempre confirma esse discurso. Muitos vivem com reformas que mal chegam ao final do mês. Outros enfrentam listas de espera nos serviços de Saúde, dificuldades de mobilidade ou uma solidão silenciosa que raramente aparece nas estatísticas. Nos grandes centros urbanos, as pessoas passam umas pelas outras sem se conhecerem. No interior, muitas aldeias sobrevivem apenas graças aos que ficaram, quase todos já em idade avançada.

A solidão é talvez a face mais dolorosa desta questão. Conhecemos histórias de idosos que passam dias sem falar com ninguém, que aguardam a visita de um familiar ou de um vizinho como o momento mais importante da semana. Enquanto discutimos inteligência artificial, cidades inteligentes e transformação digital, esquecemo-nos por vezes de uma necessidade profundamente humana: a companhia. Nenhuma inovação tecnológica consegue substituir totalmente um olhar atento, uma conversa ou um gesto de proximidade.

A forma como tratamos os idosos diz muito sobre a sociedade que estamos a construir. Se valorizamos apenas quem produz, quem consome e quem acompanha o ritmo frenético dos tempos modernos, estaremos a transmitir a ideia de que a dignidade humana tem prazo de validade. Não, envelhecer não é um fracasso! É um privilégio que nem todos alcançam. E uma sociedade verdadeiramente justa é aquela que reconhece valor em todas as fases da vida.

Quando afirmo que “este país não é para velhos”, não o faço como uma constatação definitiva. Faço-o como um alerta. Portugal continua a ser um país de afetos, de proximidade e de comunidades solidárias. Mas corre o risco de perder essas características se não encontrar formas de integrar melhor os seus idosos, de os ouvir e de lhes dar condições para viver com autonomia e respeito. Afinal, ao falarmos dos velhos de hoje, estamos também a falar de nós. Se tudo correr como desejamos, um dia ocuparemos o seu lugar e, então, avaliaremos o que por eles fizemos.

Paulo Cunha é professor

Crónica publicada em:

Foto: Daniel Santos