Há muitos dias que não o tomo. Há demasiados dias que não lhe provo o quente. Ressente-se-me disso o corpo, que vai sinalizando a ausência com ameaças de dor de cabeça, que faço por ignorar, e outras marcas da pressa que aceito (a vida, os dias a correr). Nada me impede de abrir o armário e agarrar numa chávena qualquer, também em corrida, pegar numa das muitas saquetas com pedacinhos de folhas cuja idade desconheço, misturas que nem imagino o que sejam, atirar-lhe com água quente para cima, soprar, e pronto, poderia beber o meu quotidiano chá. Mas, para contrariar as pressões do dia-a-dia, habituei-me ao luxo do tempo – sempre que a agenda silencia o rosnar, uso a chaleira que mede as temperaturas diferentes a que quero a água, escolho as folhas com vagar, a chávena daquele dia, o bule apropriado, e preparo, verdadeiramente, o chá. O meu chá, porque é para mim que o preparo, mesmo se o fizer para mais alguém.
Depois de escolher as folhas, olho para a fileira de filtros de pano, pendurada na lateral do escorredor da louça, para o lado onde pratos e panelas a secar não perturbem os aros metálicos e as pequenas sacolas de pano onde deponho as plantas e passo, por elas, a água. Estes filtros são ainda mais diferentes entre si do que os bules da minha cozinha. São três ou quatro os bules, quase todos de vidro e, à exceção daquele onde preparo a infusão vermelha de Aspalathus Linearis (as folhas de red bush, ou rooibos) e do que me serve para o chá branco, que mantêm a transparência, os de chá preto e chá verde têm o vidro turvado pelo sarro das infusões. Mas, se o vidro não fixa todos os tons que as folhas, ao toque da água quente, libertam, o pano dos filtros é menos caprichoso e deixa-se contagiar de castanhos escuros, castanhos mais claros, castanhos esverdeados, amarelos acastanhados e castanhos em que o alaranjado quase vermelha: uma paleta que varia com a passagem do tempo e a agonia das folhas. Olhar para os meus filtros, mesmo nos dias em que não faço chá, faz-me vir à cabeça ideias de aprisionamento e inefabilidade, contaminação e autonomia, individualidade e coisa comum. Como fazem as folhas, que, ainda depois de mortas, entregam ao tecido parte do que lhes dava vida, dispensam de si o pouco que ainda as marca, cedem, nesse estertor aquecido, a cor que um dia as animou?
A coloração dos filtros de chá absorve e revela uma linguagem de além-vida. Será outro privilégio, pensar que as nódoas que neles vejo são legados de arbustos distantes, de lugares onde os meus pés nunca pisaram, mas que saboreio na infusão dos chás? O que leio naquele alfabeto não são contos exóticos: são versos dos fragmentos de folhas: separadas dos troncos finos de onde brotaram, forçadas à tribulação de mecanismos e viagens, elas agarram-se outra vez ao que o quente da água lhes oferece, como se a dádiva dos tons que recordam fosse a negação da morte, a lembrança das cores do sol que receberam, da vida que, afinal, nelas existe.
Ana Isabel Soares é professora
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Foto: Vasco Célio
