O LAMA Teatro estreou, de 16 a 18 de outubro, na LAMA Black Box, em Faro, «O Vendedor de Gomas que Ensinava Zeca aos Putos», uma nova criação com texto, ideia e encenação de João de Brito. A estreia assinalou também os 16 anos de vida e trabalho do LAMA Teatro, numa celebração que cruza a nova criação da companhia com o percurso de um projeto que, a partir de Faro, tem afirmado e levado o teatro algarvio a palcos nacionais e internacionais.
Durante décadas, um vendedor de gomas percorreu escolas de todo o país na sua bicicleta, sempre carregada de guloseimas, discos gastos e histórias improváveis. Era conhecido em todo o lado: o som da buzina tinha o mesmo poder que a campainha da escola. Mas, mais do entupir as veias de várias gerações, o que verdadeiramente o apaixonava era dar a conhecer às crianças o encanto dos cantautores de Abril.
Após a morte do pai, Rita e Manel regressam à casa onde cresceram para enfrentar aquilo que mais custa arrumar: as memórias. No centro daquela casa está a tal bicicleta carregadinha de gomas e de discos. Há também um gira-discos, bolachas americanas, fotografias e discos. Os dois irmãos revisitam a infância e descobrem que o pai, um simples vendedor de gomas, lhes deixou muito mais do que objetos. Deixou-lhes canções, histórias, perguntas, ainda mais perguntas, liberdade, sentido crítico e uma forma de olhar e enfrentar o mundo.
Enquanto recordam as pequenas coisas do quotidiano, as brincadeiras, as discussões, os conselhos, os afetos, as músicas de intervenção de José Afonso, Rita Olivaes, Sérgio Godinho, Ermelinda Duarte, José Mário Branco, Adriano Correia de Oliveira e outros cantautores tornam-se uma espécie de mapa da memória familiar e de um país que eles não viveram, mas que aprenderam a conhecer através das histórias do pai.
Ao encontrarem uma caixa, Rita e Manel são conduzidos por uma série de pistas e mensagens que os obrigam a continuar uma conversa que a morte interrompeu. Mais do que descobrir o que fazer com os seus pertences, os irmãos são confrontados com uma pergunta essencial: o que fazer com tudo aquilo que herdamos e que não cabe dentro de uma caixa? “Entre o humor e a saudade, a peça fala de luto, memória, família e liberdade, mas também daquilo que permanece quando alguém parte. Porque há coisas que se arrumam, coisas que se guardam e outras que continuam a viver em nós”, descreve João de Brito.
Com Beatriz Gonçalves e José Leite em cena, «O Vendedor de Gomas que Ensinava Zeca aos Putos» é uma criação sobre família, memória e transmissão, mas também sobre a forma como uma canção pode sobreviver a quem a cantou e atravessar gerações. Com produção da LAMA Teatro e coprodução do Teatro do Eléctrico, conta com o apoio institucional do Município de Faro e o apoio da República Portuguesa – Cultura | DGARTES – Direção – Geral das Artes.
Texto: Daniel Pina | Fotografia: Daniel Pina
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