A Europa está a ficar «antiga», a ser vista como ultrapassada e, pior, a ficar para trás. Parece ser esta uma perceção generalizada.
Na semana em que se assinalou o Dia Mundial do Turismo, dou conta que a Europa é um bom destino turístico da procura das origens de outros continentes. Visitam-nos porque cada vez mais população dessas partes têm condições para viajar e porque a Europa é um «Museu». Estamos todos, em todos os Estados-membros, cada vez mais a viver do turismo.
E o problema não é haver mais turismo, é ter de haver mais outros coisas, noutros setores, que nos tornem/mantenham competitivos, no caso da Europa, também na vanguarda económica, da tecnologia, da investigação, além da vanguarda dos valores e princípios onde nos mantemos.
Há um certo espírito de conforto sobre o que somos enquanto civilização ocidental, um certo privilégio democrático nos direitos sociais e na defesa ambiental e ficámo-nos por aí. O Mundo avança e nós ficamos «só» por aí, como se de direitos adquiridos perpétuos se tratassem.
«Tudo o que é bom acaba depressa». Outras latitudes já nos ultrapassaram no crescimento demográfico, pujança tecnológica, criativa e económica e competem sem contar com a Europa enquanto produtora, mas apenas como consumidora dos seus produtos, pois ainda temos alto poder aquisitivo e gostamos de manter o conforto de viver bem.
No contexto diplomático conta agora a lei do mais forte e nós estamos a ficar mais fracos. Mesmo que gastando, de repente, desalmadamente e sem critério para agradar a quem nos impõe regras na defesa, continuamos sem estratégia, portanto, sem voz.
Claro que isto vai correr mal ao nível das finanças comuns. Os conflitos vão ser cada vez mais persistentes e as exigências sociais também, até que, por força do declínio social, os esforços para o bem-estar que atrai votos vão soçobrando às exigências crescentes.
Até aqui nada de novo nesta repetição confrangedora de ladainhas que já sabemos, mas muitas vezes ainda não assumimos completamente nas nossas opções.
Sugiro, pois, que voltemos aos básicos. Obriguemo-nos a optar, a escolher e a assumir as consequências das nossas exigências, conhecendo antecipadamente a informação subjacente às alternativas. Sugiro que reinventemos o nosso comportamento sobre o funcionamento do poder e, portanto, da forma de encarar a democracia.
Proponho que, com total normalidade, frequência e frontalidade, independentemente dos partidos e líderes, sejamos confrontados numa democracia participativa direta.
Sim, desejo que além dos poderes que transferimos para os nossos representantes nos atuais órgãos de soberania, se implemente de forma crescente e ativa, normal, desejada e franca a nossa chamada, enquanto cidadãos, a saber mais sobre cada assunto em concreto que nos diz respeito e votemos, cada um de nós, diretamente, no que queremos escolher como caminho, como solução.
Temos já uma democracia madura, não deixemos que se transforme em democracia caduca.
Penso mesmo que a Europa, para progredir, tem que salvaguardar a sua identidade, valores, transparência e, portanto, salvar a democracia, assim mobilizar os seus cidadãos e catapultar-se para os novos desafios de forma esclarecida, sabendo todos que o caminho é o escolhido comumente entre iguais de forma responsável, voltando a acreditar uns nos outros.
Acham que isto é só política? É! Querem saber exemplos de política a referendar? É sobre a energia – queremos o nuclear ou não? Sobre opções de Segurança Social ou sobre mais outras acerca captação de instalações industriais ou investimentos públicos estruturantes nacionais ou regionais? O que se faz em primeiro lugar face à alternativa considerando os recursos? etc...
Acho que já temos idade para saber, para decidir. Os governos não podem ter de decidir sobre tudo sempre e nós só criticamos.
Vamos participar na formação do futuro ou só ficamos com medo do futuro? Não me apetece ser parte de uma peça de museu.
Paulo Neves é um «ilhéu», mas nenhum homem é uma ilha
Crónica publicada em:
