O Pedra Dura – Festival de Dança do Algarve regressa, de 4 a 14 de novembro, a vários espaços da cidade de Lagos, com uma programação que reúne dança, cinema, música e masterclasses. «Voltamos atrás sem repetir o momento» é o mote através do qual a quinta edição do evento se propõe revisitar o que ficou para trás: reconhecer o que deixou marca, reencontrar memórias e perceber o que ainda permanece em movimento. “Olhar de novo, a partir do presente. É neste espaço entre memória e mudança, permanência e reinvenção, que se constrói a nova edição do festival”, referem os produtores Daniel Matos e Joana Flor Duarte.

Entre os destaques desta edição estão Alessandro Sciarroni, com «Save the Last Dance for Me», que recupera a polka chinata, antiga dança de cortejo bolonhesa, transformando-a num dueto contemporâneo marcado pela intimidade, tensão e confiança; Vera Mantero, com «Uma Misteriosa Coisa, disse o E.E. Cummings», solo originalmente estreado em 1996 para a «Homenagem a Josephine Baker», uma iniciativa da Culturgest em Lisboa; e Clara Andermatt, com «O Cansaço dos Santos», uma obra de forte carga simbólica, na qual ícones ritualísticos e religiosos são atravessados por uma intensa fisicalidade e por uma sexualidade latente. Tales Frey, um dos artistas internacionais convidados desta edição, apresenta o espetáculo «Be (on) you», onde investiga a relação entre identidade, desejo e alteridade no espaço público. Adicionalmente, apresenta a instalação «Zona de Contacto», no Museu de Lagos, e dá uma masterclass sobre indumentos performativos.

Em «Megastructure», Sarah Baltzinger e Isaiah Wilson exploram a relação entre dois corpos em permanente coabitação, partindo da sua própria experiência enquanto casal. Chiara Corbetta, intérprete deste espetáculo, dará a conhecer a prática coreográficas destes criadores numa masterclass. Bruno Senune surge em dois momentos da programação: «Nácar», que aborda o esquecimento e a ficção das memórias de infância, e «Melancolia», um ritual no espaço público que mistura de fragilidade e potência. A programação internacional completa-se com «Celebration» de Polina Kanis, que recorre ao vídeo e à performance para questionar as estruturas de poder.

Entre as propostas de criações nacionais estão «Final Girl», de Rina Marques e Rui Paixão, solo inspirado no cinema de terror que parte da figura da sobrevivente para refletir sobre medo, resistência e sobrevivência; e «SECO», de Bernardo Chatillon, sobre a dificuldade de traduzir em palavras a experiência contemporânea, encontrando no corpo uma possibilidade de expressão. A programação inclui ainda «This is Not a Love Story, This is A & B», de Maurícia | Neves; «Grief in progresso», de BULLYACHE; e «An embodied exploration of human manipulation», de Ioanna Anousaki, sobre as dimensões psicológicas, emocionais e sociais das relações tóxicas.

O cinema volta a integrar a programação do festival, com cinco propostas que cruzam imagem, corpo, memória e movimento. «Pele Nómada», de Aline Belfort e João Fiadeiro, acompanha o percurso de João Fiadeiro por lugares ligados à sua trajetória e à do atelier RE.AL, num filme sobre memória, desapego e recomeço, em diálogo com «Crying Cycle III», de Daniel Matos e João Catarino, terceiro filme da trilogia sobre o tempo presente. Para escolas, «O Corpo que Atravessa», de Mário J. Negrão, parte de «Sensorianas», de Clara Andermatt, para abordar deslocação, identidade e liberdade. «Bull’s Heart», de Eva Stefania, acompanha Dimitris Papaioannou e a sua equipa durante a criação e digressão de «Transverse Orientation», enquanto «HURLE», de Flora Détraz, explora o inconsciente e a relação entre o visível e o invisível através da figura de uma mulher-oráculo.

A programação musical cruza concertos, performance e DJ sets, prolongando o festival para além dos palcos. ANTERA apresenta «Delíria», concerto-performance que reinventa a tradição portuguesa através da eletrónica e da canção de autor, enquanto REZMORAH traz «HÍBRIDA», entre música e poesia eletrónica. «alga», projeto de Cláudia Simões, propõe uma experiência sonora performática e sensorial. A programação inclui ainda os DJ sets de Von-Cente, João Melgueira, Tiago Assis, no âmbito da Mad Roller Disco, Guilhotina, com Cumbia Sunset, uma viagem pelos ritmos latino-americanos, e VNHQ, que cruza tribal house, afro house, electro tribal, tech house e influências de world music.

Em 2026, o festival renova a parceria com o Centro Ciência Viva de Lagos e conta com «Aqui há um buraco», de José Ferreira, uma visita performativa onde o corpo é simultaneamente visitante, instrumento, pergunta e resposta, e com a palestra Iluminismo e Renascimento, direcionada às escolas. Esta edição conta também com a inauguração de uma nova exposição no âmbito do CenDDA – Centro de Documentação de Dança do Algarve, em parceria com a Biblioteca Municipal Dr. Júlio Dantas e o Município de Lagos, e com «Roommates», de Ruben Bellinkx, que reúne as projeções «Double Bind» e «Stasis» em duas salas do Centro Cultural de Lagos.

À semelhança dos anos anteriores, o festival será palco do lançamento da mais recente edição da «Coreia», que contará com a performance «Reverberações de um corpo-tela» de Wura Moraes. As residências artísticas, que desde 2024 integram o festival, voltam a trazer artistas a Lagos, numa parceria nacional com os Estúdios Victor Córdon e o Centro Ciência Viva de Lagos, e noutra internacional, com a Kultur | LX e a TROIS C-L. E porque não se faz um festival sem diálogo, o Pedra Dura conta ainda com espaços de reflexão e debate. Rita Rodrigues dirige o projeto «Corpo Crítico», que reúne diferentes pessoas para acompanhar a programação do Festival enquanto corpo coletivo que observa, questiona e experimenta; e Tiago Mansilha volta a juntar artistas e públicos em conversas depois dos espetáculos e no podcast «Podemos tratar-nos por tu?».

O Pedra Dura conta com a direção artística de Daniel Matos e Joana Flor Duarte, é uma coprodução da Cama – Associação Cultural e do Município de Lagos e tem o apoio da Direção Geral das Artes e do Município de Lagos. Toda a informação sobre o programa pode ser consultada em www.festivalpedradura.com.

Texto: Daniel Pina | Fotografia: Daniel Pina e Festival Pedra Dura

Veja a reportagem em: