Portugal é um país de três F’s. Fado, Fátima e Futebol.
Não fomos nós que inventámos esta fórmula. Foi a História. Nós limitámo-nos a aperfeiçoá-la, como fazemos com quase tudo: pegamos numa coisa aparentemente simples e transformamo-la numa maneira de explicar a existência. Comecemos pelo Fado.
Portugal é conhecido no estrangeiro por ser o país do fado. Se a música é uma das formas mais genuínas de expressão de um povo, percebe-se então porque somos uns deprimidos crónicos, resignados a um destino que não podemos evitar e, por isso mesmo, ainda mais desgraçados. O Fado deixou há muito de ser apenas um género musical. É uma filosofia de vida. Ensinou-nos a sofrer com elegância, a transformar a desgraça em património imaterial e a lamentar aquilo que ainda nem perdemos. “Era o que tinha de acontecer”. “Não há nada a fazer”. “É a vida”.
Ou seja: antes de acontecer qualquer coisa, já estamos preparados para aceitar que não havia nada a fazer. A culpa é das companhias farmacêuticas, digo-vos eu. Algures na nossa História, juntaram-se para criar um mercado-piloto de antidepressivos e ansiolíticos. E inventaram o Fado. A coisa resultou. E se não resultar, há sempre Fátima. O segundo F explica outra característica nacional: nós acreditamos.
Algures em 1917, num prado verdejante perto de Fátima, três criancinhas apascentavam um rebanho de cabras quando uma delas descobriu uma cultura estranha de cogumelos. Comida não abundava naqueles tempos. Os menus vegetarianos das grandes cadeias de fast food ainda estavam a 87 anos de distância. Quando comeram os cogumelos ao lanche, as coisas começaram a ganhar contornos surrealistas: cabras às cores, outras a voar, um cão a recitar Shakespeare e uma senhora de branco, parecida com a Cristina Ferreira, pendurada numa árvore. O resto é do conhecimento público. Um povo a querer acreditar em qualquer coisa. Dos cogumelos nunca mais ninguém ouviu falar. Pudera. Mas sejamos sinceros: Fátima representa uma extraordinária capacidade portuguesa de olhar para o céu quando não sabemos o que fazer cá em baixo. E, sobretudo, de continuar a acreditar mesmo quando a realidade insiste em contrariar-nos. Talvez por isso Fado e Fátima se dêem tão bem. Um diz-nos para aceitar. O outro para esperar. E nós fazemos as duas coisas.
A fechar a nossa trilogia nacional vem o Futebol, atualmente o F mais ativo do país, se excluirmos aquele palavrão que gritamos diariamente quando lemos os jornais ou ligamos a TVI.
O Futebol tornou-se gigante, em parte, graças ao lugar que ocupou durante o Estado Novo e à extraordinária dimensão popular que ganhou. Depois apareceu Eusébio e, em 1966, Portugal descobriu que talvez fosse alguma coisa de jeito. Foi sol de pouca dura. Voltámos ao Fado e ficámos à espera que, num qualquer dia de nevoeiro, surgissem onze gajos com jeitinho nos pés capazes de dar uma razão de existência a esta nação. E as preces foram ouvidas. Apareceu Cristiano Ronaldo. A nossa Fátima de chuteiras. O nosso Fado com camisola. Ronaldo fez coisas extraordinárias com uma bola nos pés. O problema é que uma coisa é jogar futebol. Outra é ser aquilo que nós decidimos que um jogador deve ser quando o transformamos em símbolo nacional. Ronaldo tornou-se personagem, símbolo, património emocional da República. E quando alguém atinge esse estatuto, começamos a confundir as coisas: o talento passa a desculpar o comportamento, os golos pagam a conta da personalidade e a camisola sete parece conferir imunidade diplomática. Só que Ronaldo, aos 41 anos, parece ter chegado a uma fase da carreira em que ainda não conseguiu aceitar o fim de um ciclo. Continua a tentar prolongar aquilo que o corpo já não lhe permite ser. Pode ter sido extraordinário, quase sobre-humano, mas continua a ser apenas um homem, e nenhum homem consegue negociar eternamente com o tempo. Esta evidência, confirmada dentro das quatro linhas, passou a ser tratada por alguns, e pelo próprio, como uma espécie de heresia nacional.
E talvez seja precisamente aí que começa o problema: quando alguém se considera maior do que a função que desempenha, qualquer decisão passa a parecer uma afronta pessoal. E depois lá vem aquela frase que me tira do sério: “Temos de lhe estar eternamente gratos por tudo o que fez por nós”. Até como escreveu Pedro Olavo Simões, eu não devo nada a Cristiano Ronaldo. Sem adeptos qualquer craque seria apenas um pé-rapado a dar pontapés na bola. E talvez seja bom lembrarmo-nos disso de vez em quando: o ídolo também é produto de quem o idolatra.
Mas voltemos à novela. Porque isto já não é futebol. É espetáculo, com um episódio novo todos os dias. Podíamos chamar-lhe «C'ego'R7». Mas ainda não sabemos se estamos no último episódio. Esta histeria criada por esta crise revela e meço bem as palavras, a mediocridade instalada num país capaz de converter um arrufo entre gente do pontapé na bola numa espécie de tragédia nacional. Em que raio de país nos convertemos? E enquanto discutimos as atitudes do protagonista do seu narcisismo que pode ser clinicamente preocupante, há pessoas a fazer contas à casa, famílias a fazer contas no supermercado, jovens a fazer contas ao futuro e doentes a fazer contas ao tempo. Mas esses problemas têm um enorme defeito: não têm milhões de seguidores. Nem um jato privado para se baldarem ao trabalho.
Por isso, talvez o problema nunca tenham sido os três F’s. Talvez o problema seja termos aprendido a viver deles. Fado para aceitar. Fátima para esperar. Futebol para esquecer.
E quando finalmente percebemos que continuamos no mesmo sítio, sobra-nos o quarto.
QUE SE LIXEM - com F maiúsculo, naturalmente - os ronaldos desta vida.
Porque há coisas que, nem precisam de ser ditas por inteiro para toda a gente perceber.
Júlio Ferreira é um inconformado encartado
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