No passado dia 19 de setembro, D. Vitorino José Pereira Soares tomou posse como Bispo do Algarve, iniciando uma missão para a qual lhe desejo as maiores felicidades. A chegada de um novo prelado constitui sempre um momento de renovação e de esperança, mas esta trouxe consigo um pormenor histórico que merece ser assinalado: pela primeira vez, o número de bispos com sede em Faro ultrapassou o dos que exerceram o seu ministério em Silves.

Trinta e quatro em Faro, perante os trinta e três que figuram na sucessão episcopal silvense. Uma diferença aparentemente pequena, mas que convida a olhar para quase cinco séculos de história e, sobretudo, para o futuro de uma região que continua a precisar de se reconhecer como um todo.

Entre aquelas duas listas existe uma figura comum: D. Jerónimo Osório, último Bispo de Silves e primeiro Bispo de Faro, que concretizou, em 1577, a transferência da sede episcopal. Humanista de projeção europeia, teólogo e homem de letras, apresentou-se também como Bispo do Algarve. Uma designação cuja dimensão regional importa recordar, porque a responsabilidade de um bispo se estende muito para além da cidade onde se encontra a sua catedral.

É precisamente esse o desejo que gostaria de associar ao início deste episcopado: que contribua para consolidar um verdadeiro Bispado do Algarve, na presença, na proximidade e na atenção dispensada às suas comunidades. A diocese já abrange toda a região. Importa que essa abrangência se traduza numa vivência em que todos os algarvios se sintam igualmente considerados, de Barlavento a Sotavento, do litoral às aldeias do interior.

As assimetrias regionais não se resolvem apenas através de decisões administrativas ou de investimentos públicos. Também se atenuam com instituições capazes de aproximar pessoas, de escutar comunidades e de contrariar a concentração de oportunidades e de atenção em determinados lugares. Pela sua implantação territorial e pela influência que exerce, a Igreja pode contribuir para esse desenvolvimento harmonioso, tanto na dimensão religiosa como na vida social, cultural e económica.

Recordar D. Jerónimo Osório neste contexto permite igualmente pensar no significado do humanismo. O século XVI foi um tempo de expansão dos horizontes geográficos e intelectuais, mas também de conflitos religiosos, intolerância e profundas disputas de poder. Nesse cenário, o conhecimento, a reflexão e a preocupação com a formação moral dos governantes assumiam particular importância. D. Jerónimo Osório participou nesse debate, associando a cultura à responsabilidade de quem tinha de orientar os destinos de outros.

Seria errado transportar diretamente para o presente as ideias de um homem de Quinhentos. Podemos, contudo, recuperar a exigência de pensar a sociedade, de valorizar o conhecimento e de interrogar o exercício do poder. Também o Algarve de hoje precisa de humanistas capazes de olhar para as pessoas para além dos números, das nacionalidades ou da utilidade económica que lhes é atribuída.

Vivemos numa região cuja imagem de prosperidade nem sempre permite perceber as dificuldades de muitas famílias. Por detrás das praias, dos hotéis e dos recordes turísticos existem rendimentos insuficientes, precariedade, solidão e dificuldades no acesso à habitação. Há quem trabalhe todos os dias e continue sem conseguir assegurar uma vida digna.

A estas fragilidades juntam-se discursos extremistas e de hostilidade à imigração, que procuram transformar o medo e a insatisfação em rejeição do outro. Num Algarve marcado, ao longo dos séculos, pela circulação de pessoas e pelo encontro de culturas, essa rejeição merece uma reflexão especialmente séria. Quem chega para trabalhar e procurar melhores condições de vida deve encontrar respeito pela sua dignidade e proteção contra a exploração.

A Igreja tem aqui uma responsabilidade que ultrapassa o auxílio imediato. Através das paróquias, da Cáritas e das instituições de solidariedade, pode aliviar carências, mas também ajudar a compreender as suas causas, promover a integração e defender aqueles cuja voz dificilmente chega aos espaços de decisão. A proximidade quotidiana dá-lhe um conhecimento da realidade que importa fazer ouvir.

Essa atenção às pessoas deve acompanhar o cuidado com a memória. Igrejas, ermidas, imagens, pinturas, alfaias e arquivos paroquiais conservam uma parte essencial da história algarvia. Neles encontramos a expressão da fé, mas também o trabalho de artistas e artesãos, os percursos de famílias e as marcas das comunidades que nos antecederam.

Na continuidade do trabalho desenvolvido durante o episcopado de D. Manuel Neto Quintas, desejo que a salvaguarda, o estudo e a recuperação desse património mantenham um lugar relevante na vida diocesana. Conservar implica conhecer, inventariar e criar condições para que esta herança possa ser transmitida e compreendida.

Ao novo Bispo do Algarve deixo, por isso, as boas-vindas e um desejo: que encontre nesta terra a força para uma missão próxima das pessoas, atenta às desigualdades e comprometida com a sua memória. Que o seu episcopado ajude a aproximar Barlavento e Sotavento e a construir um Algarve onde ninguém se sinta esquecido.

Nuno Campos Inácio é editor e escritor

Crónica publicada em:

Foto: Daniel Pina