(…) Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Eduardo Alves da Costa

Hoje falava com as alunas sobre um episódio recente que aconteceu na universidade. Uma criatura de extrema-direita sentou banca dentro do campus e começou a gritar impropérios xenófobos. Tentou-se, civilizadamente, demovê-la da sua ação insana e, a meu ver, ilegal, mas nada resultou. Tiveram de chamar a polícia. Isso fez-me lembrar um episódio recente, ainda no período eleitoral no Brasil. Um ex-colega de colégio, defensor de um candidato de extrema-direita, entrou confortavelmente na minha página do Facebook e começou a discutir comigo a minha escolha política. Diga-se que ele não foi convidado, citado, referenciado ou mesmo lembrado por mim. Pura e simplesmente, como dizem os espanhóis, como Pedro por sua casa, acomodou-se no meu feed e começou a exigir provas contra o seu candidato, porque, contra o meu, ele tinha mais de mil. Todas devidamente comprovadas pelas mensagens do WhatsApp da tia ou do primo no grupo da família. Nada de ler um jornal sério, ou até um menos sério. Acho que nada de ler, porque a interpretação de texto exige abertura de cabeça para aceitar argumentos baseados em factos e não em sensações ou ideias retorcidas e pré-cozidas. Tentei argumentar e dizer que ele não mudaria a minha intenção de voto, nem eu a dele. Que ele fosse em paz e seguisse a sua vida como bem entendesse. Não adiantou: voltou a barafustar e a encher o meu feed com fake news e absurdos. Não dei conversa: desamiguei-o e bloqueei-o. Não há diálogo possível com quem não quer dialogar, não nos enganemos. Não gosto de confrontos e não tenho paciência. Não briguei, não esperneei, apenas desamiguei. Como aconteceu com a criatura que entrou pela universidade adentro, proferindo discursos de ódio, e que não se calou nem se coibiu perante os pedidos educados e a presença da polícia, a única forma de a calar foi a bela ideia de alguém que lhe atirou dois baldes de água à cabeça. Deveria ter atirado os baldes também. Porque a tolerância tem limites e não podemos aturar os intolerantes nem dar palco a essa gente que se esqueceu dos princípios básicos da civilização. Baldes e bloqueio são um bom argumento para lutar contra aqueles cujos argumentos nascem de ideias insanas e perigosas, que alegremente contornam e distorcem a verdade.

Mirian Tavares é professora

Crónica publicada em:

Foto: Isa Mestre