Detesto formulários. Todos. Em papel, online, tanto faz. Irritam-me aquelas caixinhas que nos obrigam a transformar projetos inteiros em meia dúzia de caracteres. Eu, que gosto de explicar tudo. Tudinho.

Mas, há dias, deparei-me com um formulário diferente. O problema não era a falta de espaço. Era o excesso. Páginas e mais páginas. Campos atrás de campos. Perguntas sem qualquer relação com o pedido que eu estava a fazer. Informação inútil, mas com a indicação de obrigatória do princípio ao fim.

Convencida de que havia engano, perguntei à funcionária que mo entregara se tinha a certeza de que era o formulário certo.

Não havia qualquer dúvida. Era mesmo aquele.

Quis então saber se era indispensável preencher todos os campos.

Lamentou imenso. Disse que me compreendia. Sabia que grande parte da informação pedida era inútil e que ouvia as mesmas queixas todos os dias. Mas não dependia dela. Tinha instruções para só aceitar o formulário com todos os campos preenchidos até à última linha.

Resignei-me. Perdi uma hora da minha vida numa tarefa que, com um pouco de bom senso, não teria demorado mais de 10 minutos.

No final, reparei numa pequena caixa, no canto superior direito, preenchida com uma sequência de números e letras.

Perguntei o que significavam.

A funcionária explicou que os números correspondiam à data da criação do documento e as letras identificavam o autor.

Estranhei.

— Mas são tantas...

Sorriu.

— Sempre que o formulário é revisto, acrescentam-se uma nova data e as iniciais de quem fez a alteração. Assim sabemos quem fez o quê e quando. É o procedimento.

Por momentos, imaginei aquele formulário dali a vinte anos. A primeira página inteiramente tomada por datas e iniciais, sem um centímetro livre para mais revisões. Abrirão uma segunda folha, decerto. Porque procedimento é procedimento. Não existe por acaso.

Ninguém prova que trabalhou olhando para um documento e concluindo que estava bem. É preciso alterar qualquer coisa. Acrescenta-se um campo. Divide-se outro em três. Introduz-se uma tabela. Exige-se que o requerente demonstre a coerência entre a proposta, o objetivo geral, os objetivos específicos, os resultados esperados e mais uma ou duas abstrações cujo propósito ninguém conhece ao certo, mas ficam sempre bem. Pouco importa que essa informação já lá esteja ou que não acrescente nada. O importante é que exista uma alteração visível, suficientemente evidente para justificar mais um número e duas letras naquela caixinha.

O cidadão preenche. O procedimento está validado. Afinal, era tudo indispensável.

Só foi pena não haver um espaço para também deixar a data e as minhas iniciais.

Afinal de contas, fui eu quem mais escreveu.


Sílvia Quinteiro é professora

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